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  • A estória da Boêmia Taluda – Por Júnior Rebouças

    A estória da Boêmia Taluda
    Por Júnior Rebouças

    Ela, pele muita branca, corpo escultural, rosto belíssimo, cabelos longos encaracolados negros, igual pena de craúna, pernas longas e coxas roliças, definidas, torneadas… resultado dos anos de ballet clássico praticados no internato. Mas também… possuidora de uma admirável bunda e estava um pouco acima do peso normal.

    Gostava de se vestir sempre de preto, blusas comportadas, mas um pouco insinuantes, calcinhas conservadoras, calças apertadas, botas cano curto com salto alto.

    Filha única de uma família classe média da região. Os pais se diziam católicos, os três irmãos, um era feirante, outro cuidava do pequeno sítio da família e o caçula fazia dança de rua.

    Ao concluir curso superior na capital, após 12 anos, e trabalhar por mais três, decidiu voltar à cidade, não procurando ou refazendo antigas amizades, mesmo assim, começou a frequentar os bares da época, em especial o ”Bar do Sambão”, que ficava aberto até madrugadão a dentro e era o ponto de encontro da boemia do lugar, pois oferecia bons petiscos, caldos, cerveja gelada e as vezes, a depender do humor de Zezito, tinha música ao vivo .

    Logo, começou a ser percebida por sua beleza e por sempre ficar em mesa específica e sozinha, nunca chegava, nem saia acompanhada, a não ser de um fusca 75, todo recuperado, que seu pai tinha lhe dado, e só bebia aguardente, de qualidade muito boa, uma que era produzida no lugar.

    E no bar, alguns assíduos frequentadores, lá iam políticos, pequenos empresários, blogueiros, pessoal de comunicação, artes, professores, funcionários públicos, aquele povo que produz opinião… já questionavam a Zezito da Viola, quem era aquela beldade, a Boêmia taluda, que não falava com ninguém?

    Em uma dessas madrugadas, um forasteiro, havia pouco tempo que estava indo ao estabelecimento de Zezito, muito elegante, algumas mechas grisalhas, boa pinta, se interessou pela beleza do rosto e observou sua solidão. Ele, jornalista conceituado e conhecido, fazendo matéria, para uma televisão da capital, sobre engenhos antigos, produtores de açúcar, melaço, rapadura, cachaça… em áureos tempos idos, dos Senhores de engenho.

    Se dirigindo ele até a mesa dela de forma imponente, altiva, objetiva… pediu pra sentar, ela o ignorou e não respondeu. Sentou mesmo assim e ela prontamente entornou seu copo, depois com uma batida brusca, colocou-o novamente na mesa, com o fundo virado pra cima. Sinalizando que a noite havia acabado ali. E foi embora!

    Voltou no dia seguinte, pouco tempo depois, veio ela e se postou em sua mesa de costume. Ele, sem titubear, foi até lá e sentou-se, ela tentou sair, mas suavemente, foi segura pelo braço e uma voz muito macia e meiga, a convenceu ficar.

    A partir daí, e não demorou muito, eles começaram um romance, tórrido, intenso, avassalador, inesperado, imprevisível… visto que ele casado e com três filhos e ela havia acabado de se separar e sofria perseguição sistemática do ex-marido, incluindo agressão física.

    Em determinado momento, passaram três dias desaparecidos, exilados na praia da Pipa…

    Lá tomaram a decisão que iriam morar juntos.

    Ao retornar à cidade para finalizar a reportagem e pegar roupas e pertences, marcaram encontro no Bar do Sambão e de lá viajariam.

    Ela ao chegar, sentou-se naquela mesma mesa próxima ao canto e pediu a bebida de sempre. Sem muita demora ele chegou, deu-lhe um longo beijo apaixonado.

    Zezito já havia levado uma Heineken, sua cerveja preferida, ele encheu um copo e o elevou para um brinde com sua amada, que o acompanhou com o seu copo de aguardente.

    No auge de felicidade do casal, em momento sublime, eis que surge inesperadamente, de forma abrupta e rompante, armado com uma pistola automática, militar da reserva e ex-marido, que sem dizer uma palavra, nem ser notado, avança três passos em direção ao casal, se posiciona e atira várias vezes, duas nas costas do jornalista e quatro entre o tórax e a cabeça da mulher, deixando-a quase desfigurada. Depois dá um tiro na própria cabeça…

    O primeiro reporte a chegar ao local da tragédia foi Renan Caldas, que após rapidamente coletar informações, solta notícia ao vivo na rádio local e da capital:

    “Em bar da cidade, jornalista famoso foi assassinado por causa de ciúmes e sua namorada, uma frequentadora, conhecida como Boêmia Taluda, foi vítima de feminicídio…”

    Júnior Rebouças, 02/10/2020, São José de Mipibu

    por manoelrebjr

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