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  • Prof. Neto, intelectual, escritor, poeta, radialista e vaqueiro do Ribeiro.

    Pandemia                                                                                               

    Meu pai era ex-combatente e muitas vezes eu ouvi falar sobre as agruras da guerra.

    Talvez estimulado por esses relatos, li bastante sobre o referido assunto e tive plena convicção de que a 3ª guerra mundial chegaria trazendo o pânico do letal poder bélico das nações, o terror das armas químicas e o terrível medo das armas nucleares; e em meio a essa catástrofe, países se enfrentariam buscando ou tomando riquezas dos outros.

    Como me enganei! Vejo o mundo lutando desesperadamente contra um inimigo que não usa armas, no entanto já matou milhares de pessoas e, diariamente, encurrala milhões de seres humanos.

    O inimigo invisível impôs sua força de tal forma que somos obrigados a nos entrincheirar em nossas casas, usando como armas: ÁGUA, SABÃO, ÁLCOOL E MÁSCARA; produtos aos quais antes disso não dávamos tanta importância, porém, hoje são extremamente essenciais para a nossa sobrevivência.

    Com esses ataques invisíveis, as ruas ficaram desertas, os shopping, o comércio de rua, as escolas, os bancos, as igrejas, os bares, os restaurantes fecharam suas portas, suspenderam suas atividades. Vários estádios de futebol foram transformados em hospitais de campanha; lembrando ainda que as festas desapareceram e viagens foram canceladas.

    Um verdadeiro caos! Um cenário desolador!

    O número crescente de mortes assusta, e somos obrigados ficar dias e noites nos protegendo em nossas trincheiras.

    Governantes desnorteados, pessoas angustiadas, enquanto batalhões de heróis, mundo à fora, com uniformes brancos. Estão presos em laboratórios tentando encontrar meios de combater a fúria do inimigo. E paralelo a isso, outros batalhões, também com uniformes brancos lutam desesperadamente para salvar vidas.

    Agora, devemos obediência às autoridades entendidas na área de saúde e cumprir, com rigor, o discutido isolamento social, o qual não nos da certeza  de que ainda iremos abraçar de forma afetiva pessoas do ciclo de amizades que estão distante.

    Resta-nos pedir proteção a Deus e termos consciência de que nada somos e de que a soberba, a prepotência, a arrogância e o orgulho nada valem, e verdadeiramente, somos apenas uma coisa: SIMPLES MORTAIS.

    E para aqueles que sobreviverem a esta pandemia, deixo o meu apelo: APRENDAM A LIÇÃO PARA QUE POSSAM RENASCER.

    Prof. Neto, São José de Mipibu

    por manoelrebjr

    Assim penso!

    Assim penso!

    Isolamento, distanciamento e meus valores

    Enxerguei, vi que posso viver sem os meus bares prediletos, aquele churrasquinho… ôooo, as tradicionais reuniões, da quinta, com os amigos do trabalho, sair na sexta sempre com a mesma turma de 30 anos atrás, as feijoadas do sábado com a galera da faculdade e da cachaça, a família reunida no domingo.

    Que definitivamente posso ser produtivo trabalhando em casa.

    Agora, mesmo em isolamento social distancial, não me permito distanciar, nem me isolar, efetivamente em casa, da minha cerveja gelada, de uma latinha de kitute, devidamente frita ao ponto, acompanhada de rodelas de cebolas brancas muito amareladas do calor Nordestino e farinha com granulometria alta.

    Este seria o fim da humanidade?

    Confirmo e reafirmo que tenho trabalhado muito em escreveduras de estilo conexo e desconexo. Ao ponto de saber que enlouqueceria sem a releitura dinâmica de “Versos íntimos” De Augusto dos Anjos, ver pela Quinquentésima vez o filme, “Por quem os sinos dobram”, com Ingrid Bergman, ou deixar de ouvir a música de Cartola, por ser tachado, efetivamente, de depressivo.

    Por isso entendo que arte, é a motricidade que necessitamos pra viver.

    Que a cultura é direito, inalienável, de primeira ordem, para nós moradores do mundo, inquilinos de Deus.

    Assim penso!

    Eu sou Júnior Rebouças

    por manoelrebjr

    Beto Bambu, um poeta popular

    Cordel do corona viru

    Marmininu liguei a televisão

    Pra ouvir o presidente

    Fazer uma convocação

    Abrir às escolas urgentes

    Que esse corona vírus

    É um resfriadin

    E não ofende a gente.

    E cá com meus botões

    Ele assim dizia

    Isso não é nada demais

    É apenas uma gripizinha

    Vortar todos a trabaiar

    E sarvar uma tal de economia.

    Aí eu fiquei na dúvida

    Ócê sabe comú nós é

    Oiá preste atenção

    Mi arresponda se pudê

    Muita gente tá morrendo

    Se não é desse corona virú

    De quê danado é?

    É todo mundo com medo

    E muito véi também

    O dia todo trancado

    Preso sem falar com ninguém

    Quando escuta a sirene da sadú

    Chega maria que lái  vem.

    Seu mininu deu na veneta

    De ir falar com o presidente

    Né mió o caba vivo

    Morto não pode mais votar

    Pelo jeito que tô vendo

    É mió nós tá em casa

    E esperar o  que vai dá .

    De dentro de casa pra o portão

    Tá mi dando um farnezin

    Distante e instante cúmendo

    Num pé e noutro pra sair

    Chega um diz entre pra dentro

    Não precisa pra rua ir

    Queria dá uma vorta

    Pra pelo menos distraí .

    Escutei que deu no rádio 

    Não ficar aquela tuiá de gente

    Pois é muito perigoso

    Esse virú ataca a todos

    Não escolhe qualidade

    Criança, jovem e véi

    Ele vem e passa o rodô.

    Homi tá um muído

    Álcool , sabão nas mãos

    Vosmicê tá sabendo

    Essa gota serena é o cão

    O virú é tão forte

    Que derruba barbatão

    Pra matar um

    Piscou os zoió tá no caixão.

    Cumpadi essa peste começa

    Parece uma constipação

    A venta é uma corredeira

    Mais não é gripi não

    Essa doença é pirigosa

    Quem pensar que é brincadeira

    Já tá com pé na cova

    E seti parmo de  chão.

    Ócêis bote reparo

    Não vá na onda de ninguém

    Se tranque dentro de casa

    Encha o buxo coma bem

    Meu Cumpadi a coisa é séra

    Esse virú é de lascar

    E não tem pena de ninguém.

    Meu Cumpadi digo á tu

    Homi ô doença braba

    Nao tem caba valentão

     Com ela não tem potoca

    Se fizer pantin pra ela

    Essa peste é pior

    Do quê á  bixiga taboca

    Beto Bambu, São José de Mipibu

    por manoelrebjr

    A feira da minha terra, do meu lugar

    Prosa no texto, texto rima


    Inicia com a chegada das carnes para os marchantes começarem a cortar
    Higiene a desejar
    Já um tantinho de gente a circular
    No final de tarde da sexta, todos a esperar
    No churrasquinho de Dona Ilza Cajuá
    O carvão inicia a queimar, carnes fresquinhas começam a assar, dá gosto saborear
    Cervejas geladas, de tudo que é marca, já estão a rolar
    Carrões, com som a tocar
    Cada um faz sua própria conta, a pagar
    Esse muído passa a noite até clarear
    Faltando banheiro, os presentes na praça, estão a mijar
    A muvuca no sábado de manhãzinha, já toma conta da feira, é gente de friviar
    Mangaio, roupa, peixe, carne, relógio, celular, estribo, lanche, faca peixeira
    Todos, ao longo do dia, na feira a comprar
    Táxi de carrinho de mão, trabalho infantil, a transitar
    Garotas jovens, bonitas, na profissão milenar
    São alguns problemas sociais da feira do meu lugar
    Na praça, no troca troca, muitos negócios a se ajustar
    Matuto que vem do sítio em lotação
    Suprir as necessidades de sua manutenção, a fome enganar
    Tem o povo mais abastado, chega cedo, já vem com a sacola na mão, muita coisa comprar
    Pedintes avulsos, carros de som, com sua propagandação, vendedor de remédio de planta, tem cura pra tudo, piolho, caganeira, cefaléia, pereba, sarna, olhado, bucho inchado, espinhela caída, lundun, pano branco, unha encravada, esporão de galo, constipação
    Vendedor de peixe oferece tudo que é pescação
    Tilápia, avoador, tainha, atum, piaba, serra, corvina, meca, cação, o que não falta é opção
    A verdura toda é exposta, toda bonitinha
    Tem qualidade, preço, desse jeito que o comprador gosta
    Tem doente, indigente, clamar, por uma moeda implorar
    Nas bancas de roupas
    Todos os modelos e marcas famosas
    Onde no cidadão causa até surpresa
    – As grifes são de origem duvidosa, nebulosa?
    – Com certeza!
    Também tem muita coisa nas lojas do calçadão, parcelam, aceitam até cartão
    Muita promoção
    A feira do meu lugar é formada de pessoas, trabalho e suor
    Carroceiro, cabeceiro, encrenqueiro, malandro sorrateiro
    Alguns vão até pro chirindró
    Tem muito mais a ofertar
    Caixa de som usada
    Panela de pressão
    Chapéu de couro
    Boné
    Blusão
    Retratista no meio da rua
    Com sua máquina na mão
    Bicicleta, o caboco compra, já volta contente, bossando, com a sua em cima da lotação
    E ainda na feira você vai encontrar
    Cela, arreio, chicote, freio, chibata, rédea, bota
    Tudo pra quem precisa montar
    O mercado também é aberto
    Para qualquer cidadão ir comprar, se alimentar
    Cuscuz com guizado, ovo frito, buchada, picado, degustar
    Tem queijo, siquilho, raivinha, brote, bolacha, biscoito de nata
    Tem mais queijo
    De coalho salgado, de manteiga
    Para provar, se aprovar, é só pagar e levar
    Carne de porco torrada, macaxeira, batata, iguarias do meu lugar
    Um carteado no meio da praça, se quiser, pode apostar
    O tempo passando, o sol aumentando
    O barraqueiro suando, mercadoria boiando
    E chegou a hora do grito soltar
    E o povo mais pobre também começa a comprar, pechinchar
    Suas sacolas encherem com tudo que existe por lá
    E Manezin, meu companheiro das farras, o Coroné do Agreste, no alto da esquina de sua varanda, com olhos de águia, não deixa nada passar
    Ver tudo, a supervisionar
    E Fábio Couto, na sua rotina, chega pra sua goma pegar
    É a feira!
    A feira do meu lugar
    Começando a minguar
    Alguns já começam a barraca desmontar
    E carroceiros as tábuas a carregar
    E os últimos bêbados ainda estão a ficar
    E a turma da limpeza começa a chegar
    A rua varrer, a lavar
    Tudo limpar
    Agora é só esperar
    Sexta a noitinha, de novo, recomeçar
    E eu estarei na resenha em Dona Ilza
    Na feira do meu lugar

    Juinin Rebouças, 11/01/2019, São José de Mipibu

    por manoelrebjr

    Bauman para reflexão

    “(…) vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é passageiro. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.
    Não há nada a que nós apegar.
    Tudo é transitório.”

    por manoelrebjr

    O noticiador e a contradição

    A vida em arremetida
    Pessoalmente consequente
    No microfone um indolente
    Radiofonia subvertida


    A profissão manquejada
    Noticiador de alvorecer
    Na rádio a exercer
    Procurei e não vi nada


    Fiz minha opção
    Viver à noticiação
    Faço disso minha estrada


    Não é necessário exposição
    Competência tenho em mão
    Não caminho vida frustrada

    Júnior Rebouças, 02/05/2020, São José de Mipibu

    por manoelrebjr